sexta-feira, junho 30, 2006


A crónica crítica sem papas na língua
Salão de BD de Barcelona
Por J. M. Varona “Ché”
(Tradução, títulos e intertítulos da responsabilidade de Buraco da Fechadura)
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Como em anos anteriores decorreu o Salón Internacional del Cómic de Barcelona, de 8 a 11 de Junho.

Entre as novidades assinalamos o aumento das exposições (chegaram ao dobro), duas delas dedicadas à guerra civil española, intituladas La Guerra de Papel e La Jaula de la Memoria, outra evocativa do Capitán Trueno (que em Portugal se chamou Capitão Trovão) cujo 50º aniversário se cumpriu em Maio passado, conforme divulgámos desenvolvidante no Buraco da Fechadura, e várias mais nas quais se expuseram desenhos de Raquel Alzate, Luis Royo, Miguelanxo Prado, Carlos Giménez e David Lloyd, além de uma última que decorreu fora do recinto do Salão consagrada ao ilustrador nortea-mericano Hill Sienkiewicz.



Comunidades

Outra das novidades consistiu na incorporação de um stand dedicado à Comunidad de Madrid, que este ano foi a primeira convidada. Nas próximas edições ir-se-ão incorporando as restantes comunidades espanholas.

Muitos foram os profissionais convidados pelo Salão, designadamente: David Lloyd, Kyle Baker, Jacques Loustal, Dave Gibbons, Jean Claude Mecieres, Guy Delisle e Vittorio Giardino. Alem das editoras com stand próprio na Feira, entre outras: Astiberri, Dolmen Editorial, Ediciones B., Ciruelo-Arte Fantástico, Ediciones Glenat, La Cúpula, El Jueves, Norma, Planeta-DeAgostini e as valencianas Ficromic, Gotham Cómics e Edicions De Ponent, convidaram uma série de desenhadores que dedicaram uma parte do seu tempo a autografar (com desenhos incluídos) as suas Bandas Desenhadas, compradas no Salão pelos bêdéfilos. Foi o caso de Juanjo Guarnido, Pedro Rodríguez, Raquel Alzate, Angel Puigmiquel, Carlos Giménez, Purita Campos, Victor Santos, Sergio Córdoba, Sergio Bleda, Alfonso Figueras, Fritz, Ken Nimura, Carla Berrocal, Rafa Fonteriz, Kim, Azagra, Mariel, Horacio Altuna, J.L. Martin, Oscar, Vizcarra, Jan, Max, Pablo Auladell, Miguelanxo Prado, David Ramirez, Luis Royo, Daniel Torres etc.. Também tiveram stand próprio as associações AACE e APIC, o Salón del Cómic de Granada, algumas escolas de desenho, a emisora COMRadio e a revista DIBUS.

Presente, o ministro-caricaturista

A actividade do Salão completou-se com uma boa quantidade de mesas redondas nas quais tomaram parte prestigiados profissionais do desenho, guionistas, escritores, críticos, historiadores e até políticos como foi o caso do ministro da Justiça López Aguilar que, além de político, exerce a actividade de humorista gráfico, conforme Buraco da Fechadura tem divulgado.

Anuário de Banda Desenhada

Durante a manhã do dia 9, teve lugar a apresentação do "Anuario de la Historieta: 2005" editado pela AACE (Asociación de Autores de Cómic de España) que, segundo afirma, aparece com o objectivo de fazer o balanço do que aconteceu no mundo da Banda Desenhada em Espanha. Os apresentadores foram o valenciano de adopção Sergio Bleda presidente da Asociação e director do Anuário, Pedro L. López o novo secretário e Álvaro Pons coordenador de articulistas.

De igual modo, o humorista Buenafuente apresentou a revista BF editada por El Jueves Ediciones.

BD e memória histórica

Entre as mesas redondas mais interesantes, cito a do dia 10 às 11 da manhã que versou sobre o tema: A recuperação da memória histórica, com intervenções dos espanhóis Dolors Genovés, Gabriel Cardona, Juste de Nin, Miguel Gallardo, Antonio Martín e o italiano Vittorio Giardino. Uma parte do tema girou em torno do trabalho de Martín na sua condição de comissário da exposição La Guerra de Papel e do desenhador Giardino que neste momento está a trabalhar numa série sobre a guerra civil espanhola, cuja acção decorre integralmente em Barcelona. Usou-se frecuentemente a palabra imparcialidade, mas dava a impressão de que se voltava a caír na tentação de recorrer aos tópicos de sempre, segundo os quais os bons eram apenas bons e os maus só maus quando a realidade - pelo menos para aqueles que, pela sua idade, estiveram mais próximos da contenda - se tratou de uma guerra cruel na qual se derramou muito sangue inocente de ambos os lados, algo para esquecer e não para revolver continuamente e menos ainda de forma interessada. Em certa altura, houve alguns vencedores que puxaram a brasa à sua sardinha. Agora temos outros vencedores que estão a fazer o mesmo; por minha parte, de cada vez que há ganhadores pelo meio, fico com a pulga atrás da orelha; até penso no possível perigo que corro de que me insultem ou agridam por ter opinião diferente ou por não afirmar aquilo que é politicamente correcto.

Torre de Babel

Considerações aparte, nesta mesa, pelo menos para mim, testemunhámos uma situação insólita (eu diria kafkiana), que não ocorreu em nenhuma outra mesa redonda, nem em reuniões, nem na entrega de prémios, nem nos corredores, nem nos stands, nem nos ateliers do Salão e nem qualquer outro dos sítios onde estive presente; nem sequer na rua, onde todos foram amáveis com os que chegávamos de outras partes de Espanha e de fora de Espanha. Acontece que Vittorio Giardino falou, como era de esperar, em italiano, soltando de quando em quando algumas expressões em espanhol (idioma que em parte conhece), mas em todos os casos as suas alocuções foram traduzidas exclusivamente em catalão, o que evitava -creio - que o próprio autor se inteirasse se o que havia dito estava bem traduzido. E por outro lado, que ficassem esclarecidos todos os demais, procedentes em grande maioria de outras regiões espanholas e de fora de Espanha. Como se não bastasse (alguns disseram-me que compreenderam melhor escutando em italiano do que com a tradução em catalão) a intervenção de outros (não todos) desenrolou-se exclusivamente no dito idioma (alguns em plano obssessivo); inclusivamente houve perguntas feitas em castelhano que tiveram respostas pouco misericordiosas em língua catalã, o que provocou, para além da falta de compreensão, que farte das pessoas se aborrecesse por achar inconcebível que aquela situação ocorresse numa cidade em que os jornais, na sua imensa maioria, se editam em castelhano e num Salão que deixaria de existir se o que ali se oferece estivesse escrito, quase 100 por cento, nessa mesma língua. Pobre futuro o da Catalunha se o sectarismo chegar a apoderar-se dessa comunidade. Por sorte, todavia, existe o "seny català" que é o que mais abunda, graças ao qual a maioria dos que ali vamos nos sentimos muito gostosamente nesta região irmã; pensoque quem realmente acredita na catalanofobia são aqueles que recorrem a atitudes extremas, não o povo vulgar e simples, que em geral manifesta um belo comportamento.

Igualmente nesta jornada teve lugar uma reunião oficial para diagnosticar a situação da BD em Espanha e como melhorá-la. Nesta reunião participaram representantes de várias associações profissionais; assim como Carles Santamaría, o novo director do certame e três deputados das Cortes. Pela AACE participou Sérgio Bleda.

Capitão Trovão

Da parte da tarde entrevistei o hispano-argentino Horacio Altuna, após o que tive oportunidade de saudar e trocar impressões com a senhora Armonía Rodríguez esposa de Victor Mora, que, juntamente com outros especialistas, haviam desenvolvido o tema ‘El Capitan Trueno: a força de um mito’.

Também estive presente na mesa redonda que versou sobre: BD continental e transatlântica, na qual intervieram os desenhadores Dave Gibbons, Jacques Loustal, Miguelanxo Prado e Toni Guiral. Foi uma das reuniões mais simpáticas e desenrolou-se no melhor dos ambientes.

Os premiados do Salão de BD de Barcelona (acompanhados de Ché, à direita, autor desta reportagem)


Entrega de prémios

À noite, no Hotel Catalonia Plaza decorreu a anual entrega de prémios, também num belo ambiente, com presença de profissionais, meios de comunicação e autoridades. Sobre os prémios, houve divisão de opiniões; alguns pensavam que havia autores que estavam mais que "revelados" e que alguns prémios de certo modo se repetiam. De resto, tudo bem. No que todos estivemos de acordo foi na atribuição do Grande Prémio do Salão ao extraordiário desenhador Víctor de la Fuente.

Disfarçados de heróis

Os bedéfilos confirmaram o êxito do Salão acorrendo em massa (muitos deles disfarçados de personagens de BD, o que já é uma tradição dos salões) principalmente na tarde de sexta-feira, sábado quase todo o dia e com repetição no doming, mas tudo dentro da ordem; longe ficaram os "engarrafamentos" a que nos tinham habituado no velho recinto da Estación de Francia.

A Comunidade Valenciana esteve representada com alguns stands, entre eles os de Gotham Cómics, Edicions de Ponent e Ficromic; também pelos desenhadores Sergio Córdoba, Rafa Fonteriz, Sergio Bleda, José Lanzón, Josep de Haro, Víctor Santos, Sebas Gil, María José Minguez e Ché. Também estiveram presentes o editor Antonio Busquets e o guionista Carlos Climen, alguns dos quais deram autógrafos e desenharam em determinados stands.

J. M. Varona "Ché"
Junio 2006

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